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Ilha do Pico 19-10-2012

Utilização de plantas autóctones – Passado, Presente e Futuro


 Região Autónoma dos Açores é uma região singular, fortemente marcada pela sua natureza insular que lhe proporciona a presença de recursos naturais únicos que desde o seu descobrimento foram reconhecidos e, portanto, utilizados devido à necessidade de auto -abastecimento.
Na obra “Saudades da Terra” do cronista Gaspar Frutuoso (1522-1591) é mencionada a utilização de algumas plantas autóctones (plantas cuja presença numa região resulta de fenómenos naturais sem a intervenção humana), entre elas muitas endémicas (plantas que só existem em determinada região ou local) das ilhas dos Açores, nos primórdios do seu povoamento.
Segundo este historiador os exemplos da utilização dessas espécies são variados.
O perrejil, os frutos da uva da serra, das silvas e do sanguinho bem como a raiz, ou seja,  o “pé” da “alfacinha, feito, dentabrum e cabelinho”, eram utilizados “para comer” ou seja na alimentação humana. Inclusivamente a raiz de dentabrum, era “cozida com água salgada” para ser comida, e assada também dava para fazer pão (“cortando-a miúda, e, depois de bem torrada no forno, a moem em atafonas, e, peneirando aquele pó, o amassam e faz, segundo dizem, pão doce.”).
A “rama das árvores do mato, de pau branco e de outras, especialmente a do azevinho” era cortada pelos pastores para alimentação do gado. O “musgo” que havia em toda a parte com “mato” era também “a comedia dos gados”, e em outras que não havia o “mato”, a que chamavam “escalvados”, havia “muito e comprido braceo”, que era comido por “gado de toda a sorte”. As cabras também se alimentavam de “trevisco”, e até lhes roíam a casca, que deita “muito leite de si”.
As espécies “alfacinha, feito, dentabrum e cabelinho” serviam também “como lã para colchões”. O “dentabrum” dava “uma lã a modo de seda”, muito macia, da qual faziam muitos colchões para camas e “cabeçais e almofadas”. Era “muito leve e de qualidade fria pera o verão, pera doentes de febres, pera qual o efeito se usa muito dele, e o levam para o reino,(…)”.
O junco, por sua vez, servia para cobrir as casas.
Os ”cubres” eram utilizados para fins medicinais e “pera muitas enfermidades”. No entanto, no fim do verão, quando estavam secos eram apanhados para fazer “cinza para lavar a roupa e curar o seu pano de linho”.
Com “…alvas menos grossas faziam temões, arados e cangas.”
As espécies lenhosas para além de fornecerem sobretudo lenha que servia para queimar tinham outros tipos de aplicação.
Ao louro era dado uso desde as bagas, de que se fazia “muito azeite que, servia para “alumiar” e de “mezinhas na terra e fora dela”. É ainda referido que principalmente nas árvores desta espécie faziam-se riscos no tronco cortando-o à roda, como anéis inclinados de uma banda, onde lhe punham por bica uma folha de árvore e, pondo nela umas jarras, recolhiam água que achavam “ser melhor e mais sadia água que outra nenhuma”.
Com a madeira do cedro faziam-se “muitos caixões, caixas e ricos escritórios, e mesas e cadeiras de estado de muito preço”, que iam “pera toda a Espanha e outras muitas partes de além mar”, e faziam-se “no porto muitos navios e caravelas e barcos”. Com as “cascas de cedros” faziam-se “atilhos” que chamavam “coras” que que serviam para amarrar.
Os teixos, que eram “muito prezados e buscados” eram utilizados para “fazerem ricas mesas e bordas delas, cadeiras e fasquiarias para ricos escritórios”.
Para as “bordas e fasquias”, o sanguinho era “também singular pau para isso.” Com esta espécie também se faziam utensílios como bacios.
Não obstante a qualidade destas madeiras, na verdade com “toda a sorte de árvores silvestres, como são (…), faias, louros, ginjas, pau branco, azevinhos, folhados, urzes, tamujos e queirós”, faziam “caixas, pernas de asnas, couçoeiras, forro, barcas e navios.”. O “mastros de navios” eram cortados e talhados do “mato de altas e direitas árvores”.
Como se pode verificar os primeiros povoadores para satisfazerem as suas necessidades básicas e sobreviverem souberam, de uma forma racional, tirar partido dos recursos naturais. Com o passar do tempo foram criadas outras condições de vida que levaram ao abandono desse tipo de exploração dos recursos.
No entanto, e embora de uma forma diferente, atenção continua a ser dada às espécies autóctones. Atualmente, e sobretudo para a florestação e ornamentação, é incentivada a utilização de espécies autóctones, principalmente as endémicas.
Tendo em conta os resultados de estudos efetuados que comprovam que as plantas endémicas da Região dispõem de propriedades únicas e podem ser utilizadas como matéria prima na perfumaria e medicamentos, crê-se que o futuro poderá ser promissor, desde que a exploração dessa valência seja feita de forma sustentável e os benefícios provenientes do uso desses componentes seja partilhado justa e equitativamente.


Nota: Considerando que na obra “Saudades da Terra” do cronista Gaspar Frutuoso (1522-1591) a referência às espécies é feita pelo nome comum utilizado na altura, procurou-se saber a que espécies correspondiam atualmente, não tendo sido possível para todas. Para aquelas que foi: “perrejil” (Crithmum maritimum), “uva da serra” (Vaccinium cylindraceum), “sanguinho” (Frangula azorica), “alfacinha” (Lactuca watsoniana), “dentabrum” (feto) e “cabelinho” (Culcita macrocarpa), “junco” (Juncus spp.), “louro” (Laurus azorica), “cedro” (Juniperus brevifolia), “teixos” (Taxus baccata), “sanguinho” (Frangula azorica), “faias” (Morella faya), “ginjas” (Prunus azorica), “pau branco” (Picconia azorica), “azevinhos” (Ilex azorica), “folhados” (Viburnum treleasei), “urzes” (Erica azorica), “tamujos” (Myrsine retusa) e “queirós” (Calluna vulgaris), “trevisco” (Euphorbia stygiana), “silvas” (Rubus hochstetterorum), “braceo”(Festuca jubata), ”cubres” (Solidago sempervirens).

Autor: Maria José Bettencourt e Paulo Pimentel
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Publicado No Fornal do Pico em 19-10-2012


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